VICKY
Meu celular toca, são 3:20, hora de começar o dia, suspiro, hoje, pelo menos, eu dormi umas boas 4 horas, o que é muito pensando em mim. Prendi o cabelo, joguei uma água no rosto, vesti uma roupa qualquer e fui terminar um trabalho da faculdade que eu tinha para fazer, não tinha muito mais para finalizar, devo ter gastado uma meia hora para terminar, usei o resto do tempo que eu tinha para estudar, tinha uma prova importante amanhã e não tinha estudado quase nada. 4:20, fiz café da manhã pra todo mundo (Não que soubesse fazer muito além de café e pão com manteiga), estava friozinho o que fez com que meu irmão demorasse mais pra sair da cama e também o deixando mais desesperado para ir logo para o trabalho.
-Julian- Chamei enquanto ele comia o pãozinho que eu tinha feito e arrumava a mochila da própria filha.
-Hm?- Ele tirou um dos cachos do rosto
-Sabe se a Leona pode buscar a Luna e a Clari na escola hoje? Tenho que resolver umas coisas na escola da Marina e do Camilo.
-O que eles aprontaram dessa vez?
-Não sei ainda. Ela pode?
-Deve poder, sair mais cedo um dia não deve dar problema, né?
-É, enfim, bom trabalho, maninho- Dei um beijo na testa dele
-Tenha um bom dia, mana
-Pode deixar- Ele saiu.
Quando as 5 e pouca da manhã foram chegando, a casa foi ganhando vida, o primeiro a dar sinal de vida foi Luke, pelo incrível que pareça, ele estava animado para a escola hoje, com certeza, tinha crush metido nessa animação toda mas eu fiquei quieta para não estragar o bom humor repentino da versão humana de Garfield. Leona apareceu logo depois com Clari nos braços:
-Bom dia, tia Vicky! Bom dia, tio Luke!- A pequenininha gritou, eu ri e a peguei no colo.
-Bom dia, princesa- Luke respondeu
-Bom dia, amor- Cumprimentei minha sobrinha- Quer pãozinho?
-Sim!- Ela se sentou na cadeira e começou a comer
-Leona- Chamei- Pode buscar Clari e Luna, hoje? ‘Tô ocupada.
-Posso sim, hoje as últimas aulas são história e filosofia, já passei nessas matérias, apesar do professor de filosofia ser um carrasco
-Mamãe vai me buscar hoje?- Perguntou Clari empolgada mas ninguém nem teve chance de responder, pois, o espírito do caos chegou na pior versão possível.
Não me levem a mal, eu já tive que conviver com muitos adolescentes dentro da minha casa mas você não sabe o que é inferno se você convive com dois monstrinhos na puberdade GÊMEOS debaixo do mesmo teto, eu conheço o inferno como a palma da minha mão. Camilo e Marina começaram o dia brigando e provavelmente iam terminar se abraçando, era a nossa jornada de todo dia, eu achei até bom porque assim eu não precisava perguntar o que tinha rolado na escola e evitava que a raiva fosse direcionada a mim.
-Vicky, Luna ‘tá te chamando no quarto- Cam me comunicou, Mar não se deu nem o trabalho de direcionar o olhar para qualquer um na mesa.
LISTA DE COISAS PARA LEMBRAR DA VICKY
-Bater um papo com Cam e Mar sobre brigas.
-Perguntar para Luke se está tudo bem (quieto demais).
Fui até o quarto falar com Luna, sentei na ponta da cama dela.
-Bom dia- Falei- Cam falou que você queria falar comigo, que foi?
-Vicky, eu ‘tô enjoada, acho que aquele cachorro quente de ontem não fez bem, desculpa.
Suspirei.
-Não precisa pedir desculpa, princesa, a mana vai resolver isso, ‘tá? Você não vai para a escola hoje não.
Ela assentiu.
Voltei para a sala sem saber o que fazer, não dava para faltar ao estágio de novo.
-O que rolou, Vicky?- Luke perguntou.
-Luna está passando mal, não vai conseguir ir pra escola.
-Quer que eu fique, Vi? Um dia não tem problema.- Leona se ofereceu
-Não, você tem que estudar, eu vou ligar pro Alan e pedir pra ele vir, só preciso que você volte pra casa de tarde sem falta, Lia.
-Beleza.
Alan era meu melhor amigo e vizinho desde sempre, às vezes eu ficava meio mal de pedir a ajuda dele com meus irmãos tantas vezes mas ele sempre me dizia que era pra isso que melhores amigos serviam e dessa vez não foi diferente. Os outros saíram pra ir para a escola e eu fiquei com a Luna até Alan chegar, ela vomitou uma vez e eu dei um remédio de enjoo a ela. Saí de casa às 6:25 da manhã rumo à escola onde eu estagiava, cheguei em cima da hora mas cheguei, o que já era uma grande vitória.
Pelo incrível que pareça, o estágio era a parte mais tranquila do meu dia, lógico que era chato ter que acompanhar aquelas crianças e aqueles conteúdos que eu já tinha aprendido (principalmente matemática), mas tinham alunos legais e era um período de tempo que eu não pensava em muita coisa. Depois do estágio, eu ia o mais rápido que o metrô deixasse para a Doce Dê, a cafeteria que era meu emprego fixo desde os meus 15 anos, o fato de eu ser melhor amiga do filho do dono (Alan), conhecer a família desde sempre e ser, sim, bem competente, fazia eles me pagarem bem e eu não podia agradecer mais por isso, porém, hoje, eu tinha que passar na escola das crianças para conversar com a diretora sobre os gêmeos então foi pra lá que eu fui.
A reunião foi o mesmo horror de sempre, a diretora me olhando com pena porque eu era a menina que tinha que vir para as reuniões dos irmãos desde sempre porque a mãe (que Deus a tenha) tinha problemas com álcool e o pai foi comprar cigarros e, acidentalmente, se esqueceu que tinha botado 6 crianças no mundo, quando eu consegui que ela fosse direto ao ponto eu descobri que Mar tinha saído na porrado com um menino porque ele foi homofóbico com o Cam, e advinhem, por coincidência o tal garoto era filho de um dos maiores investidores da escola, que engraçado. A diretora seguiu a história por mais meia hora falando sobre como Mar violentou a vítima (que, aparentemente, não era meu irmão) e como eu tinha que me atentar ao comportamento dela e que se aquilo se repetisse, Marina teria que ser suspensa. Eu, Vicky, irmã mais velha, queria aplaudir minha irmãzinha e me enaltecer por ter a criado direito mas, eu, Maria Vitória, adulta responsável contra a violência, agradeci a mulher e disse que ia conversar com Marina para que aquilo não voltasse a ocorrer.
LISTA DE COISAS PARA LEMBRAR DA VICKY
-Bater um papo com Cam e Mar sobre brigas. (URGENTE).
-Perguntar para Luke se está tudo bem (quieto demais).
-Conversar com Cam sobre esses “ataques homofóbicos”.
A Doce Dê não era muito longe da escola então fui para lá rápido, enquanto me trocava, comi uns pãezinhos que a mãe de Alan sempre deixava para mim e assumi meu posto de garçonete ao lado do meu melhor amigo.
-Luna deu muito trabalho?- Perguntei
-Nada, ela é um amor, vomitou mais algumas vezes mas já estava bem quando eu saí de lá.
-Que bom.
Alan não tinha muita coisa pra me contar e a cafeteria encheu rápido então eu entrei no meio modo automático e não desliguei até chegar em casa depois da faculdade, às 23:15, as crianças, Leona e Julian já ido para cama então eu só comi, chequei Luna, que aparentemente estava bem e mandei mensagem para Hadassa a.k.a minha única amiga da faculdade para perguntar se ela queria as anotações que eu tinha feito, uma vez que ela tinha faltado. Acabei pegando no sono no sofá mesmo e esse era só mais um dia da minha vida, eu só queria dormir e não acordar de madrugada com insônia porque isso era típico de mim, amanhã, eu estudaria e arranjaria um tempo no fim de semana para conversar com Mar e Cam sobre o acontecido.