V I C K Y
Sexta feira era, disparadamente, o melhor dia da semana então, normalmente, eu estava mais bem humorada que o habitual, porque não tinha aula da faculdade (no dia de hoje com o agravante que estava acabando o ano), porque eu podia passar um bom tempo com os meus irmãos, porque precedia o fim de semana dentre outros motivos, mas naquela sexta feira específica, eu cheguei na Doce Dê cuspindo fogo de ódio.
-O que aconteceu?- Perguntou Alan
-A DESGRAÇADA daquela diretora cínica, "nós não podemos fazer nada quanto a isso, a escola não é uma instituição política, você devia conversar com o seu irmão, talvez se ele fosse menos feminino" AH, MINHA SENHORA, VÁ SE FODER!
-Nossa, ela ainda é assim? Em pleno 2022? Achei que tinha acabado quando a gente se formou
-Nem me fale, aí ela vem com aquela vozinha passivo agressiva falando que deve ter sido difícil pro Camilo crescer sem uma figura masculina imponente para botar ordem na casa, é impressão minha ou ela tá culpando o MEU IRMÃO pela violência que ELE está sofrendo?
-Cam tá sendo atacado na escola?
-Aham, Mar me contou ontem
-Achei que essas merdas homofóbicas tinham acabado comigo- Ele disse
-O que eu faço?- Perguntei- O que você gostaria que seus pais tivessem feito quanto era você nesse lugar?
-Sei lá, Vicks, acho que você já faz muito mais do que meus pais faziam, quem me dera ter uma irmã mais velha sapatão pra me ajudar na época- ele sorriu pra mim e eu dei uma risadinha- Só esteja lá pra ele, quando ele quiser conversar e arranja um psicólogo, por favor
-Vou pedir um dinheiro para minha tia, ela falou que bancava um psicólogo se eu precisasse
-Eu acho que o que a sua família mais precisa é terapia
-É- Suspirei- Acho que não dá mais pra fugir disso
-Será que eu não sou uma figura masculina imponente o suficiente para essa velha?- Ele perguntou indignado
-Você está mesmo me fazendo essa pergunta?- Eu ri, nós rimos, o pai dele apareceu e nos deu uma bronca, nós voltamos a trabalhar.
Eu fui a última a chegar para a noite de fofocas de irmãos e recebida por um grande abraço nas pernas vindo de Clari.
-Tia! Tia! Tia! O Tio Luke tem um namoradinho!
-Cala a boca, Clarissa!- Luke pegou a sobrinha no colo tapando a boca dela- Não é bem assim, Vi
Eu comecei a rir
-Ah, é? Namorado?- Perguntei- Sabia que você estava muito quieto, quem?!
Clari mordeu a mão dele e saiu de seus braços rindo
-Ai, Clari!
-Aparentemente, eu sou o único hétero dessa família- Julian observou- Isso que a gente ficou sabendo agora
-Você é o único hétero da geração, irmão- Luke falou- Foi examente isso que eu disse e eles assumiram que eu tenho um namorado
Eu ri
-E não tem?
-Não ainda- Ele esboçou um sorriso e Marina soltou um gritinho atrás
-Então tem alguém?- Julian perguntou
-Tem, mas a gente não tem nada ainda
A essa altura eu já tinha colocado meu pijama e nós já estávamos sentados no tapete, Lia apareceu com Luna e as duas saíram com Clari, às vezes Luna ficava meio brava mas a noite da fofoca era uma coisa entre irmãos mais velhos que eu e Julian instituímos para podermos nos intrometer na vida de Luke quando ele passou a ser um adolescente. Toda sexta feira, nós, os irmãos de 13+ nos reunimos para fofocar e falar de putaria, namoradinhes, stress, escola e etc enquanto Lia entretia as crianças.
-Pipoca pronta!- Cam anunciou se sentando no tapete conosco e depois da conversa com Mar, eu não pude deixar de notar que ele estava usando um blusão de manga comprida- Luke começa, conte-nos tudo e não nos esconda nada
-Não aconteceu nada de interessante além do fato de que eu conheci uma pessoa
-E é disso que a gente quer saber- Julian reclamou- Quem?
-Nome dele é Ariano, uma amiga me convenceu a ir falar com ele quando a gente estava almoçando, só isso
Peguei um punhado de pipoca
-Ele é da sua escola?- Perguntei
-Não ainda mas vai entrar ano que vem
-'Tá interessado nele?
-Aham- Ele abocanhou meia mão cheia de pipoca
-E não é hétero- Observei
-Obviamente- Ele riu- Até me ofende
Julian o olhou feio, o fazendo rir mais
-Marina tá flertando com um menino aí- Cam soltou como se não fosse nada e as atenções se voltaram para Mar.
-Não tô não! Você que botou na cabeça que eu gosto dele.
-Parece
-Não parece
-Ei!- Luke estalou os dedos chamando a atenção dos irmãos- Dá para vocês contarem a fofoca inteira?
-Tem um menino lá na escola- Marina começou- Que é insuportável mas o Cam encrencou que eu gosto dele e agora ele não esquece isso por nada
-E você não gosta dele?- Perguntei
-Não! Não gosto de ninguém.
-Gosta sim- o irmão gêmeo insistiu- Só tá traumatizada depois da Priscila
-Não pronuncie esse nome na minha presença
-Viu!
-Ô, Mar, já deu de palavra com P- Luke empurrou a irmã com o ombro- Se permita apaixonar-se
-Depois que você arranjou esse crush você ficou muito nojento, hermano
-Mandou um espanhol do nada- Julian riu
-Tenho prova segunda
-É a última?- Perguntei
-Aham
O assunto foi rendendo e eles me fizeram contar até sobre Letícia e a confusão com Hadassa, e pelo visto meus irmãos haviam sido contagiados pelo vírus Alan porque aparentemente, segundo Marina, isso é história de dorama e eu devia namorar Letícia sendo que eu tinha visto a garota uma vez na vida e troquei sei lá, três palavras com ela, bando de emocionados esses que eu criei, viu. Julian reclamou bastante do próprio trabalho mas disse que não se arrepende de não ter entrado na faculdade, mesmo que ele vá tentar esse ano novamente, Luke falou um pouco mais sobre o crush do restaurante, Camilo e Marina meteram o pau na escola e dessa vez, eu não amenizei a situação, eu baixei o nível porque o meu ódio por aquela diretora ainda estava surreal.
-Querem mais pipoca?- Perguntei lá pelas tantas
-SIM!- Marina e Julian exclamaram, Luke fez um "tanto faz" então eu fui fazer mais.
Tinha acabado de colocar a pipoca no microondas quando Cam apareceu se encostando na pia
-A Mar te contou não contou?
Suspirei. Hora d'A conversa.
-Contou, fiquei preocupada com você.
-Vicky, de verdade, não precisa fazer nada, está tudo sob controle
-Você está se cortando?- Perguntei
Ele cruzou os braços e eu vi seus olhinhos brilharem de lágrimas, os meus provavelmente fizeram o mesmo. Ele engoliu em seco e olhou nos meus olhos, eu sabia que isso era um sim.
-Então não está tudo sob controle- Conclui- Me conta, Cam, o que está acontecendo?
-Sei lá, Vicky, eles só são babacas, minha cabeça entende isso, eles são ignorantes, homofóbicos, sei lá, mas... mas às vezes, alguma coisinha aqui dentro acredita sabe- A voz dele fica embargada- Não é racional.
-Eu sei- Abracei-o de leve- Pode ter certeza que eu sei como é
Ficamos escutando só a pipoca estourar por um tempo
-Eu nem sou gay- Ele falou- Eu gosto de garotas também, eu gosto de pessoas, porque isso é errado?
Ele estava chorando.
-Não é
O silêncio tomou a cozinha por alguns segundos.
-Vicky
-Oi
-Eu não sou um garoto- Ele disse em meio a lágrimas, eu travei por um segundo- Quer dizer, eu sou, só não sou só isso... eu sou um garoto e uma garota, ao mesmo tempo, isso é estranho? é anormal?
-Não, não é anormal, nem estranho- Olhei para ele- É só quem você é
Ficamos em silêncio por um momento enquanto eu tirava a pipoca do microondas.
-Você usa pronomes femininos? Quer que eu te chame por eles?- Perguntei e ele não conteve um sorrisinho
-Uso, comigo mesmo, mas você é a primeira pessoa para quem eu contei disso, pode me chamar no feminino, quando você quiser, eu normalmente misturo os pronomes nas frases, gosto de todos eles.
-Vai mudar seu nome?
-Acho que não, eu gosto dele, só prefiro que me chamem só de Cam na maior parte do tempo
-Ok, eu tô muito orgulhosa de você, saiba disso e eu te amo, muito
Ela sorriu
-Eu também te amo, mana
Eu estava saindo da cozinha quando Cam segurou minha mão e eu voltei
-Às vezes, quando os meninos falam aquelas coisas, eu lembro do que o papai falava, acho que é isso que me machuca mais. Eu seria uma aberração para ele, não seria?
Agora eu estava com raiva, a menção do meu pai me deixava com raiva.
-Olha para mim- Ela olhou- Nunca odeie você mesmo por algo que aquele homem disse algum dia, foda-se o que o papai dizia, você é melhor que ele, muito melhor e quando eles estiverem fazendo qualquer coisa com você ou quando você pensar em fazer alguma coisa com você mesmo, pensa que eu sou seu pai e eu te amo acima de tudo e eu tô te dizendo para meter a porrada nesses desgraçados
-Violência não é errado, dona Maria Vitória?
-É, mas agora até eu quero bater naquela diretora estão a gente dá um desconto
Rimos.
-Tenho uma pergunta- Falei
-O quê?
-E se eu quiser brigar com você no feminino, como eu faço? Cam é muito carinhoso
Ela caiu na risada.
-Fala Camila, sei lá, Vicky
-Pode te chamar de Camila em brigas então?
-Pode
-Certeza?
-Certeza
-Vocês dois morreram aí dentro?- Luke perguntou invadindo a cozinha e pegando a pipoca para ele.
-Só estávamos conversando, nada demais- Falei pegando na mão de Cam e voltando para a sala- Tenho uma novidade
-O que?- Julian perguntou
-Mandei mensagem para a tia Rayane, ela vai mandar um dinheiro, Alan tá me ajudando a procurar psicólogos e vai todo mundo aqui começar a fazer terapia, estamos muito fodidos mentalmente e eu não aguento mais o Alan me enchendo o saco por isso.
Meus irmãos acharam repentino mas ninguém discordou, acho que a nossa necessidade era meio unânime.