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A bicicleta infantil ainda a servia bem, Hannah gostava de pensar que aquilo era bom pois assim a mãe não precisava comprar outra e gastar mais dinheiro mas, na verdade, o que impedia Hannah de ter uma bicicleta de adulto não era o dinheiro e sim sua estatura que não mudava desde os seus 10 anos de idade e aquele aparentemente era o assunto preferido de Cristian, seu melhor amigo, já que o mesmo se recusava a mudar de assunto nos últimos 10 minutos de trajeto da floricultura até o café.

  -Cara, você é muito chato- Disse a loira descendo da bicicleta e tirando a corrente para a prender no poste

  -Desculpa, baixinha- Ele disse abrindo um sorriso prendendo sua própria bicicleta no poste- É que te irritar é divertido

   Hannah soltou uma risada anasalada, pegou o livro que lia no momento da cestinha da bicicleta e adentrou no café sem nem esperar por Cris, que veio atrás dela risonho. Aquele era o lugar daquela dupla, se conheceram ali, no Café Les Fleurs, há 6 anos, quando a pequena versão de 13 anos de Cris decidiu que queria praticar com seu violão em algum lugar que não fosse sua turbulenta casa e encontrou o café, na época estava muito mais cheio do que costumava ficar hoje em dia, então o pequeno Cris não encontrou uma mesa apenas para si, e acabou sendo acomodado em frente a uma garota de cabelos demasiadamente cor de rosa, uma quantidade exagerada de lápis de olho envolta de olhos azuis demais que se focavam em algum romance que provavelmente tinha a ver com vampiros ou algo desse estilo, nenhum dos dois se lembra como aquilo virou um ritual mas de alguma forma, os dois começaram a frequentar o café com frequência, sempre esperando que o outro estivesse lá, até começarem a ir juntos e era sempre assim que ocupavam seu tempo livre, no café les fleurs, Hannah lendo ou escrevendo algo e Cris tirando algum som de seu violão e o garoto podia dizer que a relação com a amiga era a coisa mais estável em sua vida mesmo que ela já não tonalizasse os cabelos loiros com a tinta cor de rosa quase radioativa há uns bons anos e tivesse trocado os lápis de olho por delineados delicados e ele também já tivesse mudado bastante desde aquele tempo. Aquela relação foi sua salvação várias vezes e sabia que tinha sido de Hannah também.

    -E aí, Hanninha? Temos atualizações sobre a garota de sorriso cristalino e olhos que formam meia luas lindas? 

   Hannah sorriu de leve

   -Não, não temos

   Mal sabia ela que no outro lado do café, uma certa moça observava o clima glacial quase implorando para que algo acontecesse. Uma xícara de café com leite absurdamente quente repousava a sua frente bem ao lado de sua leitura atual, de vez em quando a moça perdida em pensamentos bebericava o café ou lia alguns parágrafos do livro se deliciando com o romance fofo e fácil que ele esbanjava, Mina Lee definitivamente não era o tipo de pessoa que se rendia a romances com facilidade, apesar de adorar as histórias as achava bastante irreais, seus amigos costumavam a chamar de coração de pedra mesmo já tendo visto a garota se apaixonar algumas vezes durante seus 19 anos, no fundo Mina sabia que seu problema era medo de sentimentos mesmo, sempre teve medo deles, nunca soube bem porque, não gostava de sentimentos mas ansiava em sentir, gostava de intensidade, de imprevisibilidade e de liberdade. Mina gostava de desaparecer, todos perto de si já tinham se acostumado e nem se preocupavam mais, mas a moça já tinha dado uns bons sustos nas pessoas próximas de si. No momento, ela estava desaparecida há quase três meses, desde que, do nada, no meio de um passeio de carro, leu uma placa dizendo que estava há poucos quilômetros da cidade de Irina, usou a pouca bateria que tinha para avisar as mães e se mandou para o lugar, desde que chegara, a moça tinha feito alguns trabalhos de meio período para conseguir algum dinheiro e colocado suas leituras em dia, se tinha alguma palavra que pudesse definir Mina, essa palavra era imprevisibilidade, ela era extremamente impulsiva e, surpreendentemente, sensorial, quem a conhecia mais profundamente também notava uma boa dose intensidade. Talvez ela fosse um pouco 8 ou 80 de vez em quando. O importante era que a Lee se encontrava em um estado extremo de tédio, estava gostando de Irina e ainda não sentia que era a hora de ir embora e também não queria religar o celular e ter responder todas as mensagens de três meses que seus amigos e familiares tinham deixando para ela mas precisava desesperadamente de diversão e encher seu pequeno quarto da pensão de rosas não estava mais funcionando, apesar de dona Norma ser muito simpática. Talvez ela devesse arrumar alguns amigos, o grande problema de toda a sua vida, Mina era uma negação em fazer amizades, todas as suas amizades tinham vindo da escola ou da ajuda de terceiros que poderiam ser seus amigos ou suas mães, o que fosse mais vergonhoso e fizesse a menina, que não aparentava ser tão tímida como era, se contorcer para dar um simples ‘oi’. Por fim, decidiu que nada aconteceria se ela ficasse ali de molho, bebeu o resto de café que a essa altura já estava frio numa golada, pagou a conta e saiu com o livro debaixo do braço. Quando estava prestes a deixar o lugar, seus olhos escuros captaram algo, a moça virou para examinar melhor e bem no canto do café, bem próximo a lareira estavam um garoto que ela, surpreendentemente, nunca tinha visto e uma garota pequena de cabelos loiros que um pouco abaixo do ombro e franjinha que costumava estar por perto na floricultura de dona Norma, Mina supunha que fosse sua filha ou coisa assim, a primeira coisa que pensou quando os viu foi que talvez eles não estivessem muito longe da idade dela e pensou em se aproximar, ficou alguns bons minutos mordendo os lábios e pensando se se aproximava ou não, o que provavelmente fez com que os outros clientes do café pensassem que ela era louca mas ela estava muito preocupada em pensar nos prós e contras de se aproximar dos dois, depois cansou de ponderar sem chegar a conclusão nenhuma e deixou sua impulsividade a anestesiar e tomar o controle, coisa bastante arriscada segundo sua melhor amiga, Júlia. Tarde demais para conselhos, Lia.

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