V I C K Y
Achei que tinha sonhado, que tinha sido uma coisa boba, que eu ia acordar na minha cama, sozinha, mas não, eu acordei e ela estava ali, bem do meu lado, linda como ninguém deveria ter o direito de ser, sorrindo:
-Bom dia, coisa linda- Ela disse e eu percebi que seu sotaque leve brasileiro ficava ainda melhor de manhã.
-Bom dia- Sorri para ela enquanto me sentava na cama- Como estás?
-Ótima- Ela se sentou também, só usava a coberta por cima do corpo- Você é boa nisso.
Eu ri.
-Sou, é?
-Muito- Ela me beijou.
-Nem escovei os dentes ainda- Disse quando nos separamos.
-Não ligo.
Ficamos num silêncio confortável por alguns minutos.
-Tô falando sério, Vicky, eu gostei mesmo, de tudo, de você.
-Sabe, eu tenho umas coisas para fazer amanhã mas se você quiser eu repetir na quinta…
-Eu quero. Muito.
Sorri.
-Então, marcado?- Estendi minha mão para ela.
-Marcado- Ela apertou minha mão- Eu te pego às sete. E a noite toda depois.
Beijei ela.
-Eu acho bom mesmo.
Não posso dizer que a gente não aproveitou que faltavam duas horas pro nosso horário acabar e não fizemos nada interessantemente adulto.
Letícia se ofereceu para me levar em casa, mas eu não queria, eu precisava pensar no que tinha acontecido ali, no que estava acontecendo comigo, eu precisava falar com Alan. Fui andando até a Doce Dê.
Uma coisa que ninguém te fala sobre autossabotagem é que você percebe que está se auto sabotando, eu vi todos aqueles “e se” surgindo na minha cabeça e eu tinha total consciência de que era eu tentando sabotar mais uma relação saudável mas… e se ela tivesse falado aquilo por educação? e se eu fosse só sexo casual para ela? e se eu quissesse ser mais que sexo casual para ela? e se eu tivesse gostado demais do que estava acontecendo entre a gente? e se a minha mãe estivesse certa e eu realmente nunca fosse ser amada por ninguém? e se Karina estivesse certa quando disse que relacionamentos entre garotas eram só fases? e se eu fosse uma fase para Letícia? e se eu quisesse ser mais que uma fase para Letícia?
Me atirei em Alan quando ele abriu a porta da casa que ficava atrás da Doce Dê, nem tinha me dado conta que estava chorando até então.
-O que aconteceu?- Ele perguntou me puxando para o sofá.
-Transei com a Letícia.
-E foi ruim?
-Não, foi maravilhoso- Aumentei a intensidade do choro.
-Então por que você tá chorando, coisa?
-Eu não sei.
Phailin entrou na sala neste exato momento.
-Vicky! O que aconteceu?- Se aproximou.
-Vi dormiu com a garota dela.
-Não vejo o motivo do choro- Phailin observou.
-Nem eu.
-Nem eu, mas, eu sei lá, eu lembrei das coisas que a minha mãe falava e das coisas que a Karina me disse na época que eu gostava dela e…
-Maria Vitória, olha bem pra mim- Ele levantou meu rosto- Se você começar a dar crédito para qualquer coisa que a vagabunda da Karina tiver te dito milênios atrás, eu te deserdo.
Ri de leve.
-Vicky- Phailin chamou- amor é uma coisa linda, não tente se impedir de viver amor, isso é mau com você mesma. Não ponha… como vocês dizem weir̒m em inglês mesmo?
-Minhocas, mæ̀.
-Isso, não ponho minhocas na cabeça, querida.
Limpei minhas lágrimas.
-E se eu tiver gostado demais? E se eu não for nada além de um caso para ela?
-Vicky, você viu tanto quanto eu o tanto que os amigos da Let encheram o saco dela aquele dia porque ela queria ficar com você, ela com certeza não te trata só como um casinho.
-É, né?
Phailin assentiu.
-Agora, que nós resolvemos a mente, conte, os detalhes quentes.
Eu e Alan rimos e eu contei tudo que tinha acontecido, cada beijo, cada toque e cheguei a conclusão que mal podia esperar para a chegada de quinta feira e que se alguma mulher da minha vida merecesse o título de mãe, definitivamente seria Phailin e não a mulher com quem eu compartilhava o DNA.