Hannah estava concentrada demais em se preocupar na tortura que estava sendo sofrida pela amiga da protagonista para perceber a presença que se aproximava de sua mesa, o Café Les Fleurs parecia agravar sua facilidade de sair da órbita da terra, de forma que nem as conversas muito agitadas das outras mesas conseguiam a impedir de fazê-lo, a garota, provavelmente, nem perceberia que Mina estava tentando falar consigo se segundos antes, Cris não tivesse errado uma nota que doeu até nos ouvidos pouco musicais da loira.
-Nossa, tá mal hoje, hein?- Ela esticou o pescoço para olhá-lo direito- Algum problema?
-Nada fora do comum- Respondeu- Não tô conseguindo me concentrar o suficiente, só isso
-Tá tudo bem na sua casa?- Hannah perguntou mesmo já sabendo a resposta de cor
-O de sempre- Cris respondeu sem a intenção de se aprofundar no assunto.
A amiga continuou o olhando na intenção de instigá-lo a continuar, sabia que tinha algum problema, quando se tratava da família de Cristian sempre tinha na verdade. Reformulando a afirmação, Hannah sabia que algo tinha piorado e o garoto a teria respondido se sua mais nova anjo da guarda não tivesse chegado naquele exato momento e o impedido de responder.
-Olá- Disse uma voz tímida, baixinho
Hannah olhou para de onde vinha a voz, pensando não ser nada mais que uma garçonete e se deparou com ela, a garota das rosas, a musa de suas poesias, a dona do sorriso mais lindo que Hannah Hoffman já havia contemplado em toda a sua vida.
-Com licença- Mina continuou- Eu sou nova na cidade, queria saber se… sei lá, vocês podiam me ajudar a me enturmar? Eu não sei se essa é a melhor palavra, eu só não achei outra e se for qualquer incômodo, não precisa, eu só estava cansada de ficar sozinha e…
Tudo que Cris percebia era como a musa de Hannah parecia nervosa, brincando com seus próprios dedos e como a própria Hannah parecia totalmente hipnotizada pela moça, nunca tinha visto a amiga assim.
-Pode ficar com a gente- O garoto sorriu da forma mais acolhedora e simpática que conseguiu- Sente-se
Ele disse apontando para o lado de Hannah que só abriu um sorriso de canto e se
afastou para dar espaço para a garota sentar-se ao seu lado
-Obrigada- A menina sorriu levemente, se sentando
Um silêncio constrangedor se formou até Hannah sair de seu estado hipnótico e perguntar o nome da garota que se apresentou como Mina Lee.
Naquela tarde, os três não fizeram muito mais do que conversar sobre coisas triviais e trocar números de telefone, Mina ficou impressionada em como Irina parecia ter parado nos anos 80, celulares não eram comuns na pequena cidade e ninguém parecia se dar o trabalho de explicar, talvez eles nem tivessem uma resposta, o fato era que Irina era uma das poucas cidades do mundo ainda apegada a cartas e telefones fixos, para ser sincera, Mina não achou ruim, sempre quis se desconectar de redes sociais e tecnologias e Irina parecia o perfeito lugar para isso, descobriu que tanto Hannah quanto Cris tinham crescido brincando na rua e lendo livros, isso mesmo, nada de celulares e televisões, como tinha sido a infância de Mina. Irina parecia uma cidade perdida no tempo, parecia tão arcaica com essa coisa de que televisões e computadores serem só para quando fosse extremamente necessário e um ou dois celulares por casa no máximo mas ao mesmo tempo, parecia tão avançado o fato de ninguém ali ter se impressionado com o fato da garota ter sido criada por duas mães, às vezes, Irina parecia o mundo ideal para Mina e a garota vinda de cidade grande sentia que os dois amigos também gostavam de sua cidade natal. E lógico, Mina não pode deixar de perceber o quão encantadora e carismática era Hannah.
A Hoffman, por sua vez, passou longos minutos admirando a moça de olhos tão profundos quanto universos inteiros e a forma que quando ela sorria, eles formavam perfeitas meias luas, a forma que ela brincava com os dedos tatuados e os passava nos cabelos pretos e longos, como Hannah jamais havia conseguido manter os seus por mais de uma semana, sem nem notar que o fazia.
Por fim, Cris decidiu que devia ir embora e os três saíram do café, o garoto tomou o caminho para sua própria casa e as duas garotas se acompanharam, conversando sobre a
faculdade (Que Hannah estava de férias e Mina tinha trancado para viver um pouco sem muitas obrigações) e sobre a vida em geral até chegarem a pensão onde a moça vinda de cidade grande se hospedava.
-Bom, por hoje é isso- Mina disse, parando na porta do lugar
-É, foi um prazer conhecê-la, senhorita Lee- Disse Hannah fazendo uma breve reverência que referenciava as muitas observações de Mina sobre como a cidade parecia presa em tempos antigos.
Mina riu de leve e retribuiu a reverência
-Foi um prazer conhecê-la, senhorita Hoffman
-Até mais- Hannah sorriu se afastando
-Até
Mina se encostou na porta e ficou ali, paradinha, sorrindo e examinando a pequena garota loira que saltitava pela rua de pedra ao lado de sua bicicleta, seguindo um caminho muito conhecido por Mina até a floricultura, que, por acaso, era seu lar.
Hannah estava nas nuvens, mal podia acreditar que tinha passado o dia com a garota de seus poemas, que ela, agora, tinha seu número, sabia seu nome e tinha conversado com ela a tarde inteirinha! A loira entrou em seu lar quase em ritmo de dança, com um sorriso maior que ela mesma, largou o casaco em qualquer lugar mesmo sabendo que o pai provavelmente brigaria com ela por isso depois mas a garota se encontrava contente demais para se importar com isso. Foi quase correndo para a varanda, onde sabia que o pai e o irmão mais velho fumavam e bebiam todo crepúsculo.
-Oi!- Chegou sorridente, já recebendo sorrisos dos dois que ali estavam
-O que que aconteceu com você?- O irmão perguntou
-Eu passei o dia inteiro com ninguém mais ninguém menos que Mina Lee
-E quem seria Mina Lee?- O pai perguntou
-A garota das rosas, eu falei dela para vocês!
Um som de entendimento simultâneo banhou o ambiente naquele momento, Hannah tinha passado o dia com Mina, a musa de seus poemas e provavelmente não pararia de falar disso tão cedo.