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  L E T Í C I

    Sweet Child O’Mine estourava nos alto falantes do pub, eu ficava mais eufórica a cada frase que a música chegava perto do refrão, nada melhor pra comemorar a sua graduação do que um show da banda dos seus melhores amigos num pubzinho alternativo, eu gostava daquele em específico porque ele tinha uma decoração meio feérica e uma atmosfera pela qual eu era apaixonada. Eu tinha me formado já haviam uns 4 ou 5 meses? Sim, mas comemoração nunca é demais para Letícia Costa Smith.

   Eu dancei, beijei e bebi pra caralho o resto da noite porque a minha autoestima me convenceu de que eu merecia aquilo. Meus amigos acabaram o show cover deles lá para as 3 da manhã e tudo que eu conseguia gritar quando nós saímos do bar era:

 -Vocês são sensacionais, caras, sério, foi foda!

 -Obrigada- Hadi foi a primeira a recuperar a voz para me responder- Quando eles aceitaram botar Guns N’ Roses no repertório eu surtei, sério!

  -Imagino

  -Cantar Guns N’ Roses exige muito da minha pobre voz mas foi bom- Gab respondeu passando as mãos pelos cachos compridos tingidos de rosa, roxo e azul ao mesmo tempo (Nada descarado, ele)- Ei, eu ‘tava pensando, acham muito ousado a gente meter uma música original no meio do repertório?

  -Não sei- Mahara se pronunciou- Agora que a gente tá conseguindo público como cover, acho arriscado, sei lá, acho que a gente pode esperar mais.

   -Tô tão doide pra mostrar nossas músicas quanto você, Gabs, mas acho que dá pra fazer uma grana primeiro- Naomi encerrou o assunto, Gab fez careta mas não discordou dê amigue.

   -Mudando de assunto, e aí, patricinha, como vai a vida de desempregada sustentada pelos pais?- Perguntou Hadi

    -Ótima, meus pais não tão me enchendo o saco mas a minha mãe tá me mandando tomar vergonha na cara e começar a fazer alguma coisa.

    -Ás vezes eu tenho muita inveja de você, amiga- Naomi colocou em palavras o que todos ali queriam- Você tem um pai e um padrasto super legais e engajados na comunidade lgbt e em causas sociais, uma mãe gata e incrível e ainda por cima é rica, sério, Deus tem seus favoritos. 

   Let riu, tinha consciência do quanto era privilegiada e do quanto sua família era maravilhosa e não passava um dia sem agradecer por isso, ela tinha tudo, literalmente tudo que muito desejavam.

   -Ai, gente- Hadi disse- Minha amiga é muito fofa, ela me mandou as anotações da faculdade, das matérias que a gente faz juntas, porque eu não fui

   -Quem?- Gab perguntou

   -A Vicky, essa aqui, do moletom amarelo

   Ela mostrou a foto de uma menina baixinha de cabelos castanhos ondulados com um moletom amarelo e um (eu imagino) garoto do lado (confesso que eu não prestei muita atenção nele).

  -Ela é hétero?- Perguntei no impulso

  -Nossa, você não perde uma chance, meu Deus- Naomi me deu tapinha.

  -Não, ela não é hétero, ela é lésbica mas também não é pro seu bico.

  -Porquê não, Hadassa?

  -Porque ela não é uma das suas ladies, Let, se vocês soubessem metade da história dessa menina, vocês iam chorar.

   -Então eu não posso pegar ela porque ela tem um passado triste? Fala sério, Hadi, pessoas com passado triste também merecem amor, os morenos sarcásticos que você adora que o digam.

   -Quer saber, faz o que você quiser.

    -Você gosta dela, Hadassa?

    -Não.

    -Então me apresenta- Eu abri um sorriso amarelo, ela soltou uma risada anasalada.

    -Quando eu convencer ela a sair de casa eu te apresento.

    -Espera, ela não sai de casa?- Mahara perguntou

    -Ela é meio antissocial e ocupada para caramba mas é simpática, juro.

    -Traz ela para a gente conhecer um dia, vamos levar essa garota pro bom caminho.

    -Pode deixar, Gabs, pode deixar.

     Terminei minha noite com Naomi em um motel qualquer, eu e elu tínhamos uma amizade colorida confortável para ambas as partes desde que eu entrei na faculdade, na verdade, elu que me inseriu no ciclo social e me fez fazer parte do grupinho de haters do ensino médio formado por Naomi, Gab, Hadi e Mahara, às vezes tinha mais uma galera mas, normalmente, era mais eles e, a partir daquele dia, eu, era confortável e bom, na real, era uma das melhores relações que eu já tinha tido, tanto a amizade colorida com Naomi quanto a dinâmica do grupo.

   -Let- Naomi me chamou- Você já se apaixonou? Tipo, de verdade.

   -Acho que eu era apaixonada por aquele ex lá que você sabe- Vi elu revirar os olhos- Eu tinha um crush por semana na escola, mas apaixonar, apaixonar, talvez tenha sido só ele mesmo. Por quê? 

  -Conheci um carinha, não sei se tô apaixonade, mas sei lá, eu gosto dele.

  -Ah, que bonitinhe!- Me virei na cama para apertar as bochechas delu e ter o prazer de ver a vermelhidão tomar seu rosto branquelo- Mas, vem cá, vai cortar meus benefícios por causa dele?

  -Agora, não, mas se virar algo sério e ele não for um adepto de relacionamento aberto, talvez eu corte.

   -Você tem a obrigação de me apresentá-lo a partir de agora, Naomi Bianchi!

   -Eu vou! Só não agora, acabei de conhecer o garoto, não quero traumatizá-lo com os meus amigos excêntricos ainda.

   -Ele é conservador, por acaso?

   -Amiga, se ele fosse conservador, ele não estaria ficando com uma pessoa agênero, com um braço fechado de tatuagens e cabelo rosa choque.

   -Você tem um ponto.

  -Eu só acho que a Gab assusta qualquer um à primeira vista, por mais cabeça aberta que a pessoa seja.

  -E você tem outro ponto- Eu disse rindo.

  Eu gostava de ser parte dos “amigos excêntricos” de Naomi, eu gostava de ter uma família legal, eu gostava do que eu tinha com meus amigos, eu gostava de passar a noite num bar cantando músicas aleatórias com eles e, no pós-ensino médio, eu podia dizer que eu definitivamente amava a minha vida (uma coisa que não acontecia naquela época). 

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