Filippo queria dar alguma coisa especial para Lucca, já havia escutado milhares de discursos do namorado referente aos tão sonhados dezoito anos, a tão sonhada maioridade e estavam se esforçando para caralho para arranjar um presente perfeito, não estava com muita grana então já tinha excluído coisas materiais e caras de sua lista. Resolveu apelar pro emocional, reuniu várias coisinhas que tinham significado para eles (o anel de corda de violão, um potinho de tinta de cabelo roxa, o gloss de pêssego que agora fora comprado por ele próprio e mais alguns outros pequenos agradinhos), estava terminando de montar um filme de memórias feito com todos os videozinhos que Pippo tinha de todo o um ano de relacionamento dos dois quando Naomi escancarou a porta de seu quarto (que também era o quarto delu mas isso não vem ao caso).
-Que susto, Naomi! Porra!- Pippo se desequilibrou na cama, caindo de costas no colchão- Quase me matou! Eu vou contar pra mamãe!
-Ai que drama, Filippo, vim te chamar justamente pra assistir filme com a mamãe, mas agora eu quero saber… que você tá fazendo aí que não podia ser visto por ninguém?
-Nada- Ele disse se arrumando na cama- Só um vídeo de aniversário pro Lucca.
-Um vídeo quente? Uma coletânea de sex tapes?
-Lógico que não, Naomi!- O garoto se indignou- Nossa, o que é que você pensa de mim?
Ê irmane riu jogando mechas do cabelo loiro para trás.
-Não penso nada, irmãozinho, só me é estranhamente prazeroso te ver vermelhinho assim!- Elu puxou o boné do irmão para baixo.
-Besta.
-Sai- Se aproximou dele na cama- Deixa eu ver.
Filippo voltou o vídeo e apertou o botão que o fazia começar.
-Não está pronto.
-Tá, eu só quero ver, tô curiose.
O vídeo começou e Lucca apareceu na tela, com aquele sorriso só dele do tamanho do mundo, passando a mão pelo cabelo longo e preto (na época não passava muito da altura das orelhas, agora estava muito maior), Pippo se lembrava perfeitamente daquele dia, foi quando se conheceram afinal, o garoto tinha acabado de ganhar a uma câmera nova e a levava para todos os lugares, a festa na casa de Pietra não foi uma exceção. Foi lá que ele conheceu Lucca, o primo gostoso da anfitriã e a pessoa mais bizarramente incrível e linda que ele já teve o prazer de conhecer.
As cenas que passavam no vídeo, passavam mil vezes mais detalhadas em sua cabeça, por exemplo, Naomi nunca saberia como as filmagens de Pippo e Lucca pintando os cabelos (e fazendo merda) no banheiro conhecido da casa deles tinha terminado, Pippo se lembrava detalhadamente, de cada segundo, de cada confissão, de cada toque, de cada risada, de tudo.
Nem percebeu que o vídeo tinha terminado, os efeitos de Lucca sobre ele eram insanos, mesmo que ela nem mesmo estivesse ali.
-Vocês são muito fofos- Naomi comentou- Acho que se vocês terminarem eu paro de acreditar no amor.
Pippo riu.
-Isso é muita responsabilidade considerando que você é Naomi Takahashi Bianchi, a pessoa mais romântica e melosa que eu já conheci.
-Ah, cala a boca, Filippo.
-Vem cá, Naomi, você veio chamar seu irmão e se esqueceu de mim?- A mãe apareceu se encostando no batente da porta.
-Desculpa, mamãe- Naomi se levantou para abraçá-la- Eu me distraí com o Pippo sendo gay.
-Vai se foder, Naomi.
-Filippo Takahashi Bianchi.- A mãe censurou- Sem palavras feias.
-Desculpa, mãe.
Se havia uma coisa que dona Kana Takahashi prezava em sua casa, essa coisa era respeito, mas, de alguma maneira, seus dois filhos cresceram duas bocas sujas, ela culpava o falecido, que Deus o tenha.
-E então, vamos assistir ao filme ou não?
-Vamos, mamãe- Pippo sorriu se levantando passando os braços pelos ombros de Naomi e da mãe.
O filme, obviamente, era 10 coisas que eu odeio em você, tanto Naomi quanto Filippo tinham todas as falas do filme na ponta da língua, Kana praticamente os alfabetizou com o filme, ela dizia que se lembrava do pai deles quando assistia, que os dois assistiram ao filme pela primeira vez juntos e que ela odiava o pai deles com quase a mesma intensidade que os personagens se odiavam no ínicio e mais um grande blá blá blá apaixonado. No fundo, eles sabiam que a mãe falava tanto sobre isso, não só para que eles tivessem algum tipo de memória com pai que não fosse alguns flashes de infância e para que ela mesma não se esquecesse dele e do grande amor de cinema que eles viveram, porque isso Pippo não podia negar, a mãe viveu um verdadeiro rivais a amantes.
O que interessava era: NADA NESSE MUNDO ATRAPALHAVA KANA TAKAHASHI DE ASSISTIR 10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ, ABSOLUTAMENTE NADA. Até aquele dia.
Pippo era o clássico caso do garoto que sabia desde sempre que se atraia por outros garotos (a novidade para ele foi descobrir que também gostava de garotas), ele nunca tinha escondido isso da mãe ou dê irmane, e o fato nunca foi problema para ninguém naquela casa, assim como não foi um problema quando Naomi contou de sua panssexualidade, nem quando Pippo trouxe um namorado para casa, nem quando Naomi beijou uma menina na frente de Kana pela primeira vez, sempre foi tudo muito natural, o “problema” veio quando a palavra “trans” surgiu na conversa, porque pela primeira vez, Kana não entendeu o que estava acontecendo e se sentiu uma velha, Naomi chegou até a fazer uma apresentação de slides sobre não-binariedade e pronomes neutros mas Kana não sossegou enquanto não achou uma ONG especializada na comunidade LGBTQIA+, que a explicasse tudo sobre a identidade dê filhe e acompanhasse Naomi e Pippo da melhor maneira possível. Às vezes, Filippo achava a mãe exagerada, às vezes a achava fofa, mas na maioria só agradecia por ter uma pessoa tão maravilhosa assim cuidando dele, muitos não tinham essa sorte e seu próprio namorado era um exemplo disso.
O telefone de Kana tocou no meio do filme, ela se levantou pra atender porque sua ansiedade não a deixaria em paz enquanto não o fizesse e Pippo viu de relance o nome “Anushka Ong” no celular da mãe e sua preocupação começou ali, trocou um olhar com Naomi e elu só deu de ombros, como se dissesse para Pippo não se preocupar, mas era tarde demais para isso. A matriarca voltou da cozinha com os olhos cheios de lágrimas, apanhou o controle e desligou a televisão (no meio do filme), coisa que não acontecia desde sempre e falou num fio de voz.
-Para o carro, os dois.
E Pippo declarou estado de calamidade familiar.
O carro dos Takahashi parou em frente ao hospital que ficava bem no centro de Lírio, Naomi entendeu antes mesmo deles chegarem ali que o que estava acontecendo não era legal e provavelmente tinha a ver com sua cunhada, olhou pro irmão, ele parecia em negação mas parecia já ter entendido. Pippo sentiu os dedos compridos e gelados dê irmane envolvendo seus ombros, e soube que elu tinha visto algo que não queria que Filippo visse, acontece que aí já era tarde demais, ele já tinha pousado o olhar na maca que estava saindo da ambulância de onde saía Anushka e sabia perfeitamente quem estava deitado ali.
Filippo estava pouco se fodendo para as regras de segurança, abriu a porta do carro da mãe e correu em direção a porta do hospital, onde Anu e os paramédicos tinham entrado poucos segundos antes, Naomi correu atrás do irmão e Kana permaneceu onde estava, não suportaria ver o filho encarar o teria que ver.
-O que está acontecendo?- Foi a primeira coisa que Pippo disse quando alcançou a equipe, ofegante- Anu!
A diretora da ONG parou na frente dele por um segundo.
-Já lhe trago notícias, querido, vai ficar tudo bem.
Anushka voltou a correr junto à maca, o fato dela ser médica lhe dava alguns privilégios como esse. Pippo caiu no banco, nem percebeu quando seus olhos começaram a se encher d'água. Queria Lucca, queria ver Lucca, queria abraçar Lucca, sentir Lucca, queria saber o que tinha acontecido, sentia um buraco no peito. Naomi o abraçou em algum momento mas ele estava tão anestesiado que o conforto de alguém com quem dividiu o útero mal foi percebido.
Filippo perdeu as contas de quantas horas ficou ali, quase vegetando, agarrado em Naomi, molhando a blusa delu com lágrimas, Anushka disse que não foi tanto tempo assim, mas ela estava lá dentro e não era a namorada dela quem tinha chegado de maca num hospital, era a de Filippo, ele quase saltou do banco quando Anu deu o ar da graça.
-Anushka! O que aconteceu?- Perguntou agarrando os braços dela.
Anushka era uma mulher alta, indiana, que tinha seus quase 60 anos na época, e também era calma demais para o gosto do Takahashi.
-Filippo, sente-se- Ela o direcionou até o banco.
-Para me enrolar e diz o que está acontecendo, Anu!
-Pippo- Ê irmane censurou
-O que foi? Eu acabei de ver minha namorada entrando de ambulância num hospital, como vocês querem que eu reaja?
-Tudo bem, Pippito, a gente entende- Anu disse- Lucca apareceu todo machucado na ONG, nada bem, até um pouco desnutrido, ele desmaiou e não acordava por nada, querido, por isso achei melhor chamar uma ambulância, avisei a mãe de vocês porque sabia que ele ficaria melhor com a sua presença aqui.
-Ela fez isso, não fez?
-Não sei, Lucca não me disse muita coisa.
Ela tinha feito. Não sabia o que. Mas era culpa dela. Pippo tinha certeza.
-Como ele está?
-Agora já está tudo bem, ele já está no quarto e tomando soro, os médicos disseram que ele está com hipoglicemia e pneumonia.
-Eu posso vê-lo?
-Pode, eu vou ver como ele está, deve estar acordando, depois você vai.
-Anu…
-Pippo- Naomi chamou a atenção do irmão- A Anu sabe o que faz. Ela só quer o melhor pra Lucca, igual você, já, já você vê ele.
Filippo queria discutir, dizer que queria ver Lucca agora, mas se apoiou no ombro dê irmane e viu Anushka sumir dentro do hospital.
Pippo e Lucca já tinham passado por muita coisa juntos em um ano de namoro, eles consideravam que já tinham se visto em todas as situações possíveis, inclusive algumas extremamente vulneráveis, mas nenhum dos dois estava preparado para a entrada de Filippo naquele quarto de hospital.
Lucca estava olhando pro lado, os olhos dele estavam quase apáticos, a cabeça tinha sido raspada, ele estava muito mais magro do que o habitual, tinham curativos em vários lugares que Pippo podia ver de longe. Ele estava chorando. Eles estavam chorando. Filippo fechou a porta atrás de si e esperou até Lucca abrir os braços quase sem forças como se pedisse um abraço antes de perder o controle.
Menos de quinze segundos depois da cena citada anteriormente, o garoto já estava jogado na cama do hospital, em cima do namorado.
-O que fizeram com você?- Sussurrou.
-Não quero falar sobre isso- Lucca sussurrou de volta passando os dedos pelos cabelos castanhos do outro- Senti sua falta. Muita.
-Nunca mais faz isso comigo, por favor.
-Não vou, acabou agora, eu não preciso mais voltar.
Filippo impulsionou o próprio corpo para se sentar ao lado de Lucca.
-Eu amo você- Disse colocando uma mão na nuca da namorado- Tá me escutando? Eu. Amo Você.
Lucca sorriu.
-Eu também amo.
-Você?
-Você.
Pippo deixou um selar nos lábios da outra.
-Promete que vai me contar o que aconteceu depois?
Lucca revirou os olhos.
-Você já sabe o que aconteceu, não é como se fosse uma novidade.
-Não desvia da pergunta, Lucca.
-Conto, Takahashi, conto, depois, bem depois, agora me abraça.
O garoto abriu um sorriso e a abraçou, ele duvidava que houvesse algo nesse universo melhor que o abraço de Lucca.
Não demorou muito para Lucca ter alta do hospital, a essa altura, o aniversário dele já tinha passado e Filippo não tinha nem lembrado do tal vídeo e dos presentes que tinha preparado, até chegar no quarto (caos) com o namorado (porque lógico que dona Kana não se opôs a deixar Lucca passar uns dias na casa deles depois de tudo aquilo).
-Puta que pariu- Exclamou depois de entrar no quarto.
-Que foi?
-Acabei de lembrar que eu não te dei seu presente de aniversário ainda.
Lucca riu.
-Não precisa.
Filippo fez uma cara de descrença.
-Quem é você e o que fez com o meu namorado?
-Mentira, precisa sim, cadê?
Filippo se deu conta de que a coisa que ele mais amava nela era o sorriso, era lindo demais, credo! Abriu o armário e pegou a caixinha.
-Era para estar mais arrumadinha mas alguém resolveu ir pro hospital… aí não deu pra terminar.
-Culpando a vítima, que coisa mais feia, Filippo, parece até hétero.
-Abre vai- Disse se jogando ao lado dele na cama.
Ela abriu e deu de cara com gloss de pêssego, abriu um sorriso imediatamente, fazendo o namorado o imitar, pegou as fotos polaroid espalhadas pela caixa, o anel de corda de violão.
-Agora você pode realmente usar ele- Disse Filippo pegando o anel da mão da namorada e colocando no dedo dela- A gente não precisa esconder nada de ninguém
-Não, e isso é uma ótima sensação- Ele beijou o namorado.
A última coisa que ela pegou foi a tinta roxa e Pippo viu em seu olhar que ela planejava alguma coisa.
-Que que foi?
-Tem descolorante?
-Não, Lucca, você não está querendo fazer isso agora.
-Eu não tenho mais cabelo pra estragar- Disse passando a mão pelo pouco cabelo quase rente ao couro cabeludo- É o melhor momento pra fazer isso
-Naomi tem- Pippo riu passando a mão no rosto, Lucca fez questão de levantar mas o dono da casa segurou a mão do namorado- Espera, tem mais um presente.
-Mais um?- Ela se sentou de novo na cama, curiosa.
Pippo pegou o laptop e conduziu a si próprio e a Lucca a deitarem na cama.
-Não está pronto- Disse abrindo o vídeo- Mas acho que é mais genuíno assim.
Soltou o vídeo. Call It What You Want da Taylor Swift invadiu o quarto e Lucca queria começar a chorar naquele momento mesmo, e então os momentos deles começaram a passar pela tela e a vontade só piorou, Pippo era, com certeza, sua pessoa favorita no mundo, ele conseguia fazer Lucca se ver como ninguém e tinha uma delicadeza no olhar e nas palavras que encantava qualquer um, a cada frame, cada frase, cada presentinho, Lucca se apaixonava mais por aquele garoto e tinha que admitir que implorou, sim, para não ir na casa de Pietra naquele dia mas no fim, aquela tinha sido a melhor noite de toda sua vida, mas ao invés disso, o que ele disse foi:
-Meu cabelo era tão lindo, né?
E Pippo pensou: Esse é definitivamente o Lucca.
-Sério que de toda a minha romanticidade foi nesse detalhe que você focou?
O namorado riu.
-Desculpa, você é muito fofo, eu te amo, e colocar Call It What You Want foi um golpe baixo para me deixar mais apaixonada por você do que eu já sou, inclusive, eu nem sei o que eu faria sem você.
-Arranjaria alguém melhor, com certeza.
Lucca se debruçou em cima do namorado.
-Me deixa te elogiar, seu idiota!
Pippo alcançou a nuca do outro e colou os lábios dos dois.
-Quando ela, quando a minha mãe, descobriu sobre a gente, ela ficou furiosa- Disse, se deitando no peito do namorado- Ela viu a gente aquele dia, na porta da casa da Pietra, dando um selinho, não foi legal chegar em casa naquele dia, considerando que eu já tinha ficado um tempão na chuva com o senhor e que ela mal me deu comida, bom, tem um motivo para eu ter ido parar no hospital.
Pippo sentia a voz do namorado embargada.
-Ela te machucou? Fisicamente?
Ele assentiu.
-Surra de cinto basicamente, e raspou meu cabelo de uma maneira nada delicada que machucou um pouco também.
Pippo fez carinho nele.
-Sabe porque eu escolhi a tinta roxa?
-Porque foi a cor que a gente pintou naquele dia?
-Também, mas porque é a mistura do vermelho e do azul, que podem demonstrar o masculino e o feminino na nossa sociedade binária e é uma cor linda e com muita informação misturada mas ainda assim ela é linda e livre e sem preconceitos e eu acho que você é assim, roxo.
-Que fofo- Comentou- Sabe de uma coisa, acabou, eu tenho dezoito anos, eu não preciso mais voltar.
-Não só não precisa como eu não vou deixar você voltar.
-Então, assunto encerrado?
-Assunto encerrado.
-Vem, vamos pintar meu cabelo.
Lucca entrelaçou sua mão na do namorado e correu pro banheiro e de repente, eles eram as mesmas pessoas fazendo mechinhas de um ano atrás, felizes, roxos e, inevitavelmente, apaixonados.


