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V I C K Y

   Eu estava na Doce Dê, passando as compras de dona Sebastiana, uma senhora que vinha aqui, pelo menos, umas três vezes por dia porque não tinha nada pra fazer em casa, ela e Alan estavam tendo algum tipo de conversa na qual ele tenta ocultar o fato de que ele não está interessado em garota nenhuma porque é gay e não porque "essas garotas de hoje em dia são muito saidinhas", dona Sebastiana me irrita às vezes, Alan tem muito mais paciência que eu. Quando ela finalmente sai, eu quase suspiro de alívio.

-Sabe, ás vezes eu torço pro seu José Carlos empurrar ela da escada no próximo cházinho deles- Observei

-Credo, Vitória, vai pro inferno, hein- Alan me repreendeu

-Jura? Não me diga- Desdenhei arrumando minha máscara (em teoria, o covid estava controlado em Garin mas nunca se sabe).

-O seu José Carlos também não é flor que cheire

-Ah, meu estimado, não é mesmo, mas ninguém compete com o nível de chatice da dona Sebastiana, ninguém!

-A gente tá mesmo alimentando uma rivalidade ridiculamente velha de dois idosos?

-Sim, estamos, como eles começaram a brigar mesmo?

-Sei lá, só sei que tem cliente vindo, abra seu melhor sorriso, Vickyzita e de preferência não o que você usa com a dona Sebastiana, aquele é muito falso.

-Grosso- Reclamei e voltei para o balcão para atender a cliente- Boa tarde, no que posso ajudar?

-Olá, eu gostaria de um cappuccino, por gentileza.

-Qual o seu nome?

-Letícia.

-Já vou fazer, um segundo, pode aguardar na mesa.

-Obrigada

Senti a tal Letícia me olhar bastante mas ignorei , não devia ser nada sério, fiz o cappuccino e fui entregar para ela.

-Aqui está

-Obrigada, você... por acaso é amiga da Hadi?

-Hadi?- Perguntei

-É, Hadassa Olsson

-Sou, porque?

-Eu também sou, ela... me mostrou uma foto sua ontem, que coincidência

-Uau, é, coincidência- Falei, tentando entender, ia ter uma conversa com Hadassa mais tarde- Me desculpe, eu realmente preciso voltar pro trabalho...

-Ah, sim, lógico, desculpe o incômodo.

-Nada

Dei um sorrisinho e voltei pro balcão. A menina me deu até tchau quando foi embora.

LISTA DE COISAS PARA LEMBRAR DA VICKY

-Bater um papo com Cam e Mar sobre brigas. (URGENTE).

-Perguntar para Luke se está tudo bem (quieto demais).

-Conversar com Cam sobre esses "ataques homofóbicos".

-FALAR COM HADASSA SOBRE MANDAR MINHA FOTO PARA AMIGOS!!

-Que esquisito...- Murmurei mais pra mim mesma mas lógico que o fofoqueiro do Alan escutou.

-O que é esquisito?

-Assombração!- Gritei com ele no susto- Ela falou que a Hadassa mostrou uma foto minha pra ela ontem

Ele abriu um sorrisinho que mesmo que eu não o conhecesse há 15 anos eu saberia o que significa.

-E você gosta dela?- Perguntou- Ela é bonita

Revirei os olhos

-É, é bonita mas você e a Hadassa sabem muito bem que eu não me apaixono

-Você é arromântica?- Neguei com a cabeça- Então você se apaixona sim e nós dois sabemos muito bem disso

-Não tenho tempo nem psicológico para romances, Alan

-Você tem medo de romances, Vitória

-Tem cliente vindo, sua vez de atender, e abra seu melhor sorriso, o que você usa com o seu José Carlos é muito falso.

-Cínica- Ele me xingou e foi atender o cliente

Eu ri comigo mesma... no dia que eu viver um romance o mundo acaba, imagina, eu.

Mandei mensagem pra Hadassa perguntando da foto, não teríamos aula juntas hoje e eu não tava afim de esperar até amanhã.

VICKY LÓPEZ- Hadassa, você andou me apresentando para amigas??

HADASSA OLSSON- AHN?? QUEM TE CONTOU??

VICKY LÓPEZ- Uma menina veio falar comigo

HADASSA OLSSON- Onde?

VICKY LÓPEZ- Na Doce Dê, ela acabou de sair

HADASSA OLSSON- Desculpa, Vicks, eu falei de vc pra uns amgs ontem e mostrei uma foto mas foi só pq eu achei fofo vc me mandar as anotações, aliás, obrigadaa

VICKY LÓPEZ- Tranquilo, só achei esquisito mesmo, se foi vc td bem

VICKY LÓPEZ- tenho que voltar pro trabalho, bjss

HADASSA OLSSON- Bjs

Acho que Alan nunca me encheu tanto o saco por causa de uma garota quanto ele encheu por causa da tal Letícia, ele ficou tão insuportável naquele dia que eu quase preferi conversar com dona Sebastiana.

Cheguei em casa tarde (como sempre), preparada para tomar um banho e me jogar na cama, mas quando eu cheguei em casa eu me deparei com Mar sentada no sofá, séria e me olhando de cima a baixo.

-'Tá muito cansada?- Ela perguntou

Abri um sorrisinho

-Para você? Nunca- Me joguei no sofá ao lado dela- O que houve?

-Eu não o que fazer, Vicky- Ela respirou profundamente e disparou- Eu tô preocupada com o Cam e as coisas que tão acontecendo na escola mas se eu brigo com os meninos, ele fica bravo comigo por que ele não acha que vale a pena mas ele não faz nada e eu não consigo ver meu irmão gêmeo sofrendo e ficar na minha, simplesmente não dá, eu sei que violência é errado mas parece muito injusto a direção ME ameaçar quando meu irmão 'tá passando pela maior merda por causa daqueles filhos da puta!

O alerta vermelho soou na minha cabeça.

-Pera aí, Marina, eu fui na escola e eles me disseram que aconteceram uns ataques homofóbicos com o Cam mas o que exatamente está acontecendo?

-Bullying, Vicky, isso que tá acontecendo, homofobia, violência. Ele não vai querer te contar e, na verdade, ele não quer admitir nem pra ele mesmo mas o que está acontecendo na escola é bullying, é viado pra lá, bicha para cá, quando não é pior, quando não vira violência física, o Cam fala que 'tá pouco se fodendo mas eu sei que ele se importa por eu já peguei ele em momentos que se eu não tivesse chegado no quarto ele teria... ele teria se machucado.

Lágrimas tomaram meus olhos, dentro da minha casa, da minha casa.

-Mar... já bateram nele?- Minha irmãzinha assentiu- Já bateram em você?

-Já, mas eu comecei desta vez, normalmente eles só mexem com o Cam

Eu a abracei com força, meu sangue ferveu, eu devia estar vermelha de raiva, como? Como alguém tinha tanta maldade em si mesmo a ponto de tentar a todo custo fazer alguém se odiar? Tinha raiva do mundo que transformava crianças nisso, eles tinham quinze anos, quinze! Eu não conseguia definir isso como nada além de cruel. E então eu senti raiva de mim, por não ver isso antes, por não prestar mais atenção neles, por deixar a situação chegar nesse ponto.

-Eu vou na escola amanhã- Garanti a Marina- Eu vou resolver isso e vou conversar com o Cam, agora, você tem que dormir, está tarde.

Fiz carinho na bochecha dela.

-Eu te amo, Vicky

-Eu te amo muito, Mar, muito mesmo, qualquer coisa, ouviu? Qualquer coisa, pode contar comigo, 'tá?- Ela assentiu

-Boa noite, mana

-Boa noite, amor

Ela se levantou e foi para o quarto, eu tomei banho e fui pro meu, chorei até dormir. Mexer com as minhas crianças era pior que mexer comigo e aquela diretora ia conhecer a ira de uma irmã mais velha.

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