V I C K Y
Minha perna não parava de se mexer, eu estava ansiosa, precisava chegar em casa, precisava ver o tamanho do estrago, precisava defender meus irmãos então eu não pensei em mais nada quando Naomi estacionou, minha mala eu resolvia depois, naquele momento tudo na minha cabeça era subir aqueles quatro lances de escada e cuidar dos meus irmãos.
-Vicky!- Gritou uma vizinha- Está tudo bem na sua casa? Estou ouvindo uma gritaria.
-Vai ficar, senhora Ward- Gritei de volta e repeti para mim mesma- Vai ficar tudo bem.
Cheguei na porta da minha casa vendo meu pai dar um soco na cara de Julian.
-Que porra você acha que está fazendo?- Me meti no meio- Vai embora, Julian!
-Mas, Vi…
-Vai embora, Julian- Ele entrou em casa e eu suspirei aliviada- Isso é entre eu e você, o que você está fazendo aqui?
Ele riu.
-Maria Vitória, eu sabia que você viria.
-O que você quer para me deixar em paz?
-Que falta de modos com seu pai, minha filha- Ele veio me abraçar.
-Não encosta em mim- Empurrei-o- O que você quer?
-Você fez um péssimo trabalho com essas crianças, é um pior que o outro, é igualzinha a sua mãe, uma inútil.
-Saia da minha casa!
-Essa casa é minha!
Quando criança, eu teria medo do jeito que meu pai cresceu para cima de mim daquela maneira, mas eu não era mais uma criança e ele não era mais meu pai.
-Não é!- Gritei de volta- Essa casa não é sua desde quando você largou seus cinco filhos e sua esposa grávida à própria sorte dez anos atrás!- Entrei em casa na força do ódio e alcancei uma quantidade significativa de dinheiro que eu guardava para emergências e joguei em cima dele- Então você pegue esse dinheiro e pode fazer o que você quiser mas se você botar um pé na minha casa de novo, eu chamo a polícia!
-E vai falar o que para a polícia? Que é uma péssima filha?
-Não, eu vou contar tudo que você fazia com a gente porque deve ser irrelevante para você mas eu lembro, eu lembro de cada uma das garrafas quebradas, então é bom você sumir da minha vida e da dos meus irmãos ou eu não vou descansar até te botar na cadeia ou debaixo da terra.
-Eu vou embora, mas você vai se arrepender disso para o resto da sua vida, Maria Vitória!
-A porta da rua é serventia da casa- Estendi o braço, indicando a saída.
Assim que Julio López saiu do meu campo de visão, eu vi Alan e Let na escada, com minha mochila.
-Me desculpem por isso- Peguei a mochila deles- Eu falo com vocês depois, mas podem ir embora agora?
Eles assentiram.
-Vou te ligar- Alan avisou.
-Manda notícias- Let pediu.
Assenti e eles foram embora, foi só dentro do apartamentos, sentada no chão que eu desabei e chorei tudo que eu tinha guardado nos últimos dez anos, senti as mãos dos meus irmãos me envolvendo aos poucos.
-Me desculpem por isso- Falei entre lágrimas- Não queria que vocês me vissem assim.
-Todo mundo fica assim às vezes, Vi, é normal- Mar disse- Só me faz te admirar mais.
Respirei um pouco.
-Eu sou o pai de vocês, ok?- Falei- Aquele homem não tem nada a ver com vocês, eu tenho.
-Acho que ninguém nunca teve dúvidas disso, Vicky- Luke disse com lágrimas nos olhos- Não foi ele quem me ensinou a jogar basquete, foi você.
-Não foi ele quem me acolheu e deu teto para a minha namorada na pior época da nossa vida- Julian continuou- Foi você.
-Não foi ele quem me acalmou quando eu menstruei pela primeira vez e pensei que estava morrendo- Marina disse, meio rindo, meio chorando- Foi você.
-Não foi ele quem me disse para escolher um vestido quando eu disse que queria usar um da Mar- Cam disse- Foi você.
-Eu nem conheço aquele homem, para mim foi tudo você- Luna terminou.
Eu ri de leve, limpei as lágrimas e abracei Luna.
-Você fez tudo muito bem, Vicky- Julian colocou a mão no meu ombro- Quando nem precisava, você pode ser vulnerável e nos deixar te ajudar às vezes também.
Me encostei nele, eu podia não ter nenhum orgulho de dividir o sangue com aquele homem que acabara de sair do meu apartamento, nem com a mulher enterrada no cemitério da cidade há três anos, nem mesmo com tia Rayane que nunca tinha nos deixado passar necessidade mas também nunca se deu o trabalho de vir ver como nós estávamos, mas eu tinha orgulho de dividir meu sangue com eles e como eu tinha.
-Eu amo vocês.
-Lógico que ama- Luna respondeu- Você é nossa irmã, nosso pai, nossa mãe, nossa tia, nossa amiga, nossa tudo! É cinco vezes mais amor por cargo!
Eu ri e fiz carinho nos cabelos dela, era mais ou menos isso mesmo.
-Tô namorando- Soltei e o meu caos costumeiro voltou a reinar.