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  Alice estava encostada na pilastra de um centro comercial qualquer e começava a ficar nervosa, tinha a impressão que ela não viria, sentia que todos os seres humanos ali podiam ver através de sua cabeça e seu corpo, que aqueles nascidos sem magia eram os melhores telepatas do mundo. Começava a fazer coisas idiotas, como passar anéis de um dedo para o outro compulsivamente ou balançar a perna como adolescentes desesperados para sair para a educação física e sentia que todos percebiam seus mínimos movimentos. Sua cabeça não parava. 

  “E se ela não vier?”

  “E se ela estiver te fazendo de idiota?”

   E se, e se, e se… infinitas perguntas e hipóteses sem resposta. 

   Fechou os olhos.

   “E se ela me beijar?”

   “E se ela ainda me amar?”

    Não gostava de pensar nisso. Alice sempre teve uma facilidade ridícula para criar expectativas e frustrá-las, sabia que aconteceria de novo mas o fantasma falso do amor correspondido era tão reconfortante. Tão bom de sentir que era quase uma tortura. 

    O celular vibrou dentro da jaqueta preta que a essa altura já parecia desnecessária de tanto calor que Alice sentia. 

     Sofia. 

     Alô?’

     ‘Oi! Já cheguei, cadê você?’

     ‘Na frente do cinema’ 

      ‘Ok! Já te encontro!’

      O tom dela continua exatamente igual, a mesma animação, a mesma voz doce, o mesmo sorriso que eu tinha decorado todos os detalhes, Alice estava quase arrancando a porcaria da jaqueta. Seus dedos batucavam no celular com uma brutalidade maior do que a necessária, tirava e colocava a capinha repetidas vezes, desistiu de controlar a respiração. Mire o horizonte, Ali, vai ficar tudo bem. 

      E então ela viu, vindo ao longe, o mesmo sorriso de sempre, o mesmo andar saltitante. Merda de jaqueta.

     ‘Ela veio’ seu coração vibrou. Os mesmo cabelos cacheados compridos, não tinham as mechinhas cor de rosa, mas continuavam fazendo uma bela harmonia com o rosto sorridente cheio de sardas e o vestido jeans.  Alice fez menção de se aproximar, Sofia fechou a cara e fez sinal para ela esperar, a garota se aproximou e direcionou para atrás de uma planta. 

     -Oi- Finalmente falou. 

     -Oi

     -Desculpa por isso, eu falei pro meu pai que sairia com a Sara pra ele deixar.

      Alice travou. As mil palavras de “só tome cuidado, ok?” da mãe voltaram em sua cabeça. Ela tinha que mentir pros pais para sair comigo? O quanto eles sabiam sobre nós? Sobre mim? Milhares de lembranças voltaram em sua cabeça, todas as vezes que a mãe de Sofia a chamou de má influência indiretamente, todos os olhares atravessados, todos os “pode ir na casa da Ali mas dormir não, não é, querida?”, o que eles achavam dela? Alice era algum tipo de predadora por gostar de garotas? Tinha alguma doença contagiosa que só ela não sabia? Queria despejar tudo em Sofia, talvez um dia ela tivesse o feito, mas estava tão cansada de tudo isso que tudo que ela respondeu foi:

  -Ah, tudo bem.

  -O que você disse pros seus pais?

  -Nada, só que eu iria sair com você. 

  -E eles não disseram nada?

  -Não, só me disseram para tomar cuidado e não aceitar nada dos seus pais.

   Sofia assentiu, Alice suspirou. 

   Decidiram ir a um fliperama e por alguns vários minutos se deixou envolver pelo clima do lugar, pela risada de Sofia, pela ilusão de que nada teria acontecido, que elas eram só amigas, que o fim do ano anterior nunca tinha acontecido e foi um momento incrível, ignorar sua hesitação ao chegar perto da amiga, o medo de olhar pra ela, ignorar o quanto ela teve que se controlar para não fantasiar e se lembrar de coisas que deviam ter sido esquecidas quando Sofia lhe deu um bichinho de pelúcia. Alice sorriu genuinamente de maneira tão meticulosamente falsa que enganou até a si mesma durante aquela tarde, mas ali, no fundo de sua cabeça, continuava uma vozinha. 

    Sofia mudou, Sofia não era mais a mesma garota que Alice um dia conheceu como a palma de suas mãos, Sofia não era mais a mesma garota que se sujou de farinha numa guerra com ela em sua casa vazia, ela não era mais a garota que segurou suas mãos naquela adrenalina escondida pois a mãe não podia vê-las, ela não era mais a garota que gritou aos quatro cantos do mundo as letras da Girl In Red olhando para Alice com aqueles olhos. 

   ‘I don’t wanna be your friend, I wanna kiss your lips’.

   E Alice doía inteira a cada segundo que conversava com aquela garota e não conseguia ver, não importa o quanto tentasse, a Sofia com quem virava noites e noites conversando, a Sofia que escreveu todas aquelas coisas bonitas para ela, a Sofia que ela tinha certeza, por um momento, que correspondia seus sentimentos na mesma intensidade que Alice os sentia. Não era essa Sofia que havia se trancado com ela naquele banheiro, naquela festa, não era essa Sofia que tinha feito o coração gelado de Alice palpitar quando olhou no fundo de seus olhos e, acompanhando a música, disse:

   ‘I’ll wear a skirt for you’.

   Não era pra ela que Alice tinha feito tudo que tinha feito, não era essa garota que Alice lembrava quando escutava Taylor Swift, ou Harry Styles, Ariana Grande ou qualquer cantor pop idiota que ela nem gostava tanto assim.

   Antes, Alice se perguntava como o mundo havia machucado sua Sofia ao ponto de transformá-la nisso, agora se perguntava se não teria fantasiado todos seus momentos juntas, teria sido tão unilateral assim? Só ela sentiu tudo aquilo? Ela não foi nada pra alguém que um dia tinha sido tudo pra ela? Ela podia ser amada de volta?

   Elas conversaram antes de ir embora, sobre a relação delas, sobre tudo, mas aquela Sofia não a fazia querer se abrir como a Sofia que conheceu, aquela Sofia não parecia considerar tudo que elas tiveram com tanta veracidade e paixão como Alice. 

    -Você ainda gosta de mim? 

    -Pergunta difícil. 

    Gosto, eu só não quero estragar tudo de novo. Como eu sei que eu fiz da última vez. Foi culpa minha. 

     Alice queria respostas quando aceitou sair com Sofia e ela às conseguiu, só não gostou delas como sua cabeça fantasiosa achou que gostaria, ela queria mesmo continuar nessa relação esquisita com Sofia que acendia tudo dentro dela? Ela queria mesmo passar por tudo isso de novo?


 

                                                                                             ***

    Alice odiava festas juninas desde sempre, era horrível, torturante mas aquela em particular, ela não conseguia nem descrever. Odiava a escola e ter que ir a um evento lá já era péssimo por si só. Alice não sentia que tinha muito mais que duas amigas, os garotos, em sua grande maioria, ela sabia que não iam com a cara dela, às vezes Alice tinha a impressão que as pessoas não gostavam dela, nem em seu grupo de amigos, que talvez fosse melhor se ela só não estivesse ali, que ela era um peso, que não queriam ela ali. Às vezes essa sensação passava, mas sempre, sempre, voltava. 

   Sofia, uma vez, usou a metáfora do castelinho de cartas. Que Alice passava muito tempo tentando construir, depois vinha alguém e destruía tudo. Naquele momento, Alice achava que ela mesma destruía. Não tinha um motivo exato pra pensar assim, só pensava.

    Ah, Sofia, ela estava lá também, não sozinha mas com seu mais novo namoradinho. 

  Parecia que ela tinha morrido. Só que Sofia estava bem viva na verdade, mas o peito de Alice manifestava luto. Sabia que ela estava sendo fofa e tentando voltar às boas, mas Alice ainda era apaixonada demais por ela para a deixar voltar. 

  Seus olhos focaram nele. Ele. Ali quase chorou quando a viu com ele, segurou pois não há nada que ela saiba fazer tão bem quanto manipular emoções, mas seu coração ardia de um jeito que ela nem achava possível e ela nem sabia que corações ardiam. 

  As lágrimas não vinham mas elas estavam dentro dela, Alice fez cara de paisagem enquanto Sofia dançava com ele mas em sua cabeça soava algo como: ‘Com ele. Não comigo. Com ele. Ele. Não. Eu.’ e ela odiou um cara sem nem ao menos o conhecer e, ao mesmo tempo, ela quis ser um cara sem nem ao menos o conhecer.

   Queria gritar seus sentimentos, sinceramente não sabia se gritaria o quanto amava Sofia ou se a mandaria ir se foder mas precisava daquilo. 

  Ainda queria tanto beijá-la, era meio masoquista de sua parte, o cérebro entendia mas o coração não, ele é incapaz, ele não consegue entender que ela não voltaria para Alice.

  ‘Eu te odeio tanto por me fazer me odiar tanto, mas eu te amo tanto. Por nada. Eu só amo e isso é masoquista da minha parte, eu sei’ Queria puxá-la para um canto e dizer, mas não o fez. Não. Fez. Nada. 

  ‘Você percebeu o nó na minha garganta quando você puxou assunto comigo?’

  ‘Você viu as lágrimas brotando nos meus olhos?’

   ‘Você entendeu o porquê?’

    Alice foi para casa no fim da noite e chorou numa crise de insônia durante toda a madrugada. 

    No final, quem morreu foi Alice, não Sofia, Sofia estava bem viva diante de seus olhos.

 

                               ***

       Era a apresentação de teatro. Alice estava com raiva de Sofia, com raiva da irresponsabilidade dela, com raiva de todas as vezes que ela atuou de má vontade, com raiva de tudo, mas não conseguia não pensar que nesse evento, um ano atrás, elas estavam abraçadas na coxia, um ano atrás, ela estava sentindo Sofia atuar olhando para ela, um ano atrás, Sofia tinha dito que a coxia era um ótimo lugar para um primeiro beijo e Alice teve que se segurar para não propor beijá-la. Agora, tinha que se segurar pra não dar na cara dela. 

                                                                                             ***

      Sofia estava linda, parecia exatamente a garota por quem Alice havia se apaixonado, ela fazia uma apresentação de um trabalho de artes e dançava na sala aula como sua releitura de dança de rua, Alice foi transportada para os muitos vídeos que Sofia a mandava dançando de madrugada e pedia uma opinião, a maioria eram respondidos com ‘sexy’, risadinhas e mensagens proibidas que se perderiam na noite e nas limpas do celular que Sofia fazia antes de o entregar para mãe. 

      Alice tinha certeza que a mãe de Sofia achava que elas tinham alguma coisa, a cautela da filha redobrava perto da mulher, uma vez, Ali tinha ido dormir na casa de Sofia e elas não fizeram nada além de algumas brincadeirinhas idiotas, o pai de Sofia viu Alice em cima dela em uma das brincadeiras. Sofia ficou 20 minutos trancada no quarto com eles, tentando explicar que não era nada enquanto eles brigavam com ela. 

     Se permitindo imaginar, ela viu Sofia vindo até ela e lhe beijando como um grand-finale de sua dança, ali mesmo, no meio da sala de aula. Só que não aconteceu. Nada aconteceu, nunca.

   ‘Foi só uma fase, eu estava confusa’ Sofia dizia e tudo que Ali queria perguntar era ‘E eu? Eu fui só uma fase também? A gente foi só uma fase?’ mas tinha medo da resposta positiva que provavelmente receberia. 

     

                                                                                        ***

     Alice sentia a pela de Sofia na sua como já havia sentido várias vezes, mas dessa vez era diferente. Era a formatura delas do nono ano, Alice iria para França no ano seguinte e Sofia iria pra outra escola, era a última chance de Ali falar alguma coisa que fizesse sentido para a garota que a ensinou o que era amor.

      -Por que me trouxe aqui?- Sofia perguntou sorridente quando Alice parou num canto mais vazio da festa. 

      Ela estava deslumbrante e Alice se permitiu admirar a garota dos seus sonhos por alguns segundos antes de responder.

      -Queria te dizer umas coisas.

      -Pode dizer.

      Alice engoliu seco.

      -Eu queria dar um fim pra nossa história, sabe, Sofia, eu não senti isso nos últimos meses mas eu sei que eu não estava delirando quando eu senti tudo que a gente viveu e eu espero que não tenha sido só eu. Eu ainda gosto pra caralho de você, eu te beijaria aqui e agora se você me pedisse mas eu tô tentando seguir em frente, eu juro que eu estou, eu só te chamei aqui por que talvez a gente nunca mais se veja e eu acho que você foi importante demais pra mim pra isso acabar sem uma despedida decente- Ela respirou fundo- Eu só acho nossa história bonita demais para terminar com reticências. 

     Se isso fosse um livro de romance do tipo que Alice adora, Sofia a beijaria naquele momento mas não é e ela não o fez. 

     -Vou sentir sua falta, Ali- ‘Nah, não vai não’ Alice pensou com um meio sorriso- Sabe, quando você for uma puta escritora, eu vou estar lá na primeira fila, isso não precisa ser um ponto final.

    -Precisa- Alice a encarou- Se você estiver lá, no futuro, eu escrevo o segundo volume da nossa história mas esse tem que acabar aqui. Esse eu preciso que acabe aqui.

     Sofia a olhou com um meio sorriso no rosto e a abraçou forte, como não a abraçava a meses, como ela costumava fazer no início da amizade delas, antes de tudo, desfez o abraço, olhou Alice no fundo dos olhos, segurou suas mãos e disse:

    -Eu vou estar lá.

     Alice sorriu.

    -Veremos. 

    Sofia se soltou dela e voltou pra festa, Alice olhou para a lua e sentiu algo que não sentia a muito tempo. Paz. 

    -Ali!- Ouviu Yara, sua melhor amiga gritar e vir até ela com seus outros amigos - Estamos indo pra lama, esse lugar tá muito hétero, vem com a gente?

    Alice sorriu, genuinamente dessa vez, sem nem um traço de fingimento.

   -Só se for agora. 

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