L E T Í C I A
O apartamento de Vicky ficava bem perto da Doce Dê, ficava num prédio velho e a porta era pintada de rosa, tinham várias mãozinhas marcadas e nomes escritos, ela tirou a chave da bolsa e a da casa estava cheia de adesivinhos coloridos.
-Preparada?- Ela perguntou.
-Sempre.
Vicky sorriu e abriu a porta, o apartamento era quase uma extensão da porta, não tinha muita coisa mas era tudo muito colorido, eu podia ver a cozinha, a sala (muita gente) e cinco portas, cada uma mais decorada que a outra. No momento que entramos eu vi cinco pares de olhos caírem em mim.
-Você não disse que teríamos visitas hoje, Vicky- Uma garota de cabelos platinados observou assim que entramos no apartamento, meio sorrindo.
-Não teremos, eu que vou sair- Ela respondeu deixando a bolsa no sofá- essa é a Letícia- Percebi alguns olhos arregalados e cochichos quando ela disse aquilo mas ninguém disse nada- Eu só vou tomar um banho, não a traumatizem enquanto isso, por gentileza.
-Pode deixar, Vicky, eu controlo eles se precisar- Uma mulher preta e de cachos longos (e muito bonitos por sinal) disse colocando as mãos no ombro de um outro garoto.
-Obrigada, Lia- Ela se virou para mim- Qualquer coisa, grite.
Eu ri.
-Pode deixar.
Vicky sorriu e entrou em uma das portas à nossa frente, que eu assumi ser o quarto dela e depois saiu de lá e entrou no que eu achava ser o banheiro.
A sala foi tomada por silêncio, eu me encostei na parede e fiquei observando, a garota de cabelo platinado continuava a me encarar de canto de olho, entre as pessoas naquela sala, ela era a que tinha o cabelo mais liso e a pele mais clara, tinha olhos claros também, algo entre azul e verde, o irmão ao seu lado parecia ter a mesma idade e tinha feições muito parecidas com as dela apesar dos olhos mais escuros e os cabelos com mais ondulações (provavelmente porque os dela estavam cheios de química), assumi que eles eram os gêmeos que Vicky tinha comentado, diferente da irmã, o gêmeo número 2 não dava a mínima para mim, estava muito mais concentrado no próprio celular. A garota dos cabelos cacheados, a tal de Lia, trocava carícias com um garoto muito parecido com Vicky, mesmo tendo a pele um pouco mais bronzeada e os cabelos mais cacheados, imagino que ela não seja irmã deles, ao lado deles, estava uma miniatura do garoto que citei mais cedo, sério, eram idênticos, a não ser pela visível diferença de idade e pelos cachos mais curtos do segundo. No chão tinha oficialmente uma mini Vicky, era igualzinha a garota mais velha, os cabelos ondulados compridos, a pele meio naturalmente bronzeada, o sorrisinho infantil, a única coisa que as duas tinham de diferente era que a criança tinha os olhos da garota de cabelo platinado, podia apostar que aquela pequenininha era Luna, e tinha quase certeza que a de cabelo platinado era Marina, o que trocava carícias com a mulher era Julian, mas o resto ela não fazia ideia. Junto de Luna no chão estava uma criança que devia ter no máximo quatro anos, essa me olhava com grandes olhos castanhos muito curiosos.
-Tia, você gosta de Barbie?- Disse a bebê me entendendo a mão com uma boneca.
Eu ri.
-Gosto- Me aproximei, me sentando com ela e Luna no tapete- Quando eu era pequena eu costumava fazer roupas para elas. Ganhei bastante dinheiro assim.
Luna riu de leve.
-Pode fazer para mim?- A menor perguntou.
Eu dei de ombros.
-Tem muito tempo que eu não faço, não sei se eu ainda sou boa.
A criança me analisou um tempo e falou:
-Eu acho que é.
-Clari- Lia a chamou- O que a mamãe te falou sobre ficar pedindo as coisas para as pessoas?
-Calma, mamãe, eu só tô soalizando.
Ela falou aquilo numa convicção que todo mundo riu.
-É socializando, filha- O garoto que eu achava ser Julian corrigiu.
-Isso, isso…
-Desculpa, Letícia- Lia se retratou pela filha.
-Tudo bem, ela é um amor.
Clari abriu um sorrisinho.
-Viu, a tia gosta de mim, mamãe.
Lia riu e voltou para perto de Julian.
-Qualquer dia, eu faço uma roupa para a sua Barbie, Clari.
-Ebaa!- A menininha comemorou.
-Faz uma para a minha também?- Luna perguntou timidamente.
-É lógico- Abri um sorriso- Faço para as duas. Vai ser um prazer.
Luna sorriu.
-O que você faz da vida?- Marina perguntou.
-Eu sou formada em moda, quero ser estilista.
-Tipo em Barbie: Moda e Magia?- Luna perguntou animada.
-Tipo isso. Já fiz até uns figurinos para uns amigos de uma banda.
E de repente, a conversa interessou o gêmeo de Marina.
-Banda?- Ele perguntou, tirando os olhos do celular- Tipo, de verdade?
-É, High School Haters, eles são uma banda cover ainda mas eu acho que eles vão ser grandes um dia.
Ele assentiu.
-Seria legal se você botasse um pouco de moda na cabeça da Vicky- Marina observou- Ela é muito sem graça.
-Sério? Nunca reparei.
-É o amor- Disse o único irmão que ainda não tinha se pronunciado, levando uma cotovelada de Julian, senti meu rosto corar, talvez fosse mesmo.
-Qual é o seu filme da Barbie preferido?- Clari perguntou.
-Hm, acho que o segredo das fadas.
Os olhinhos dela se iluminaram.
-O meu também!
Eu engoli meu comentário de que eu amaria ainda mais se a Barbie tivesse ficado com a Raquelle no final daquele filme e sorri para ela, nesse momento a porta do banheiro abriu e Vicky saiu lá de dentro e eu não tinha palavras para explicar como aquela mulher era divina, ela usava um vestido ombro a ombro rosa e as ondas dos cabelos parcialmente presas num meio rabo de cavalo, também tinha um colar dourado fininho decorando seu pescoço. Eu ainda estava parcialmente hipnotizada quando Clari gritou apontando para mim:
-Tia Vicky, eu adorei ela!
Vicky se aproximou, sorrindo meio sem jeito.
-Jura, princesa?
Ela sorriu assentindo.
-Ela gosta da Barbie, vocês podem namorar para ela ser minha tia também?
Eu comecei a rir, Vicky arregalou os olhos e ficou perfeitamente vermelha.
-Clarissa!- Luna censurou a menina.
-Bom, vamos indo, Let?- Vicky perguntou pegando a chave de casa, eu assenti me levantando- Não me esperem acordados.
E foi aí que eu soube que Vicky López não tinha nenhuma pretensão de ter uma noite curta, um irmão dela chamou ela para perto, sussurrou alguma coisa que a fez dar um tapa nele. Saímos do apartamento.
Umas duas ruas depois da casa dela, ela soltou uma risada aliviada, olhou para mim e disse:
-Desculpa pela Clarissa.
Eu ri.
-Tudo bem, eu sei como são as crianças, elas não tem filtro.
-Pois é.
-Pelo menos eu já fui aprovada se a gente namorar um dia- Ela riu e me empurrou de leve- Nunca tinha me falado dela.
-Nunca chegamos no assunto.
-O que ela é sua?
-Sobrinha, filha do Julian.
Franzi a testa.
-Sério? Ele já tem filhos?
-Longa história.
-Seria um prazer escutá-la, se você quiser me contar.
Ela sorriu.
-O Julian e a Lia começaram a namorar com, sei lá, oito anos de idade, eles sempre foram namoradinhos de escola, era fofo, ele veio me contar todo feliz quando ele beijou ela pela primeira vez, tinham 12 anos, e quando eles perderam a virgindade juntos, com 15, só que com a perda da virgindade veio um presentinho.
-Na primeira vez?
-Segunda, eu acho, eles tem dúvidas. Enfim, a família dela ficou possessa mas ela não queria abortar, a população da minha família e das pessoas dentro da minha casa cresceu dois membros duas semanas depois que ela descobriu da gravidez. Eu cuidei deles, era isso o que tinha que ser feito.
-Lia foi expulsa de casa?
Vicky assentiu. Fomos até uma pracinha e ficamos conversando sobre coisas triviais, descobri que ela odiava a diretora da escola dos irmãos dela, que ela não gostava de carne vermelha, que ela tinha vontade conhecer a Itália um dia, que a cor favorita dela era lilás, que ela adorava o cheiro de lavanda, que ela trabalhava na Doce Dê desde os 15 anos e que era super próxima dos pais e de toda a família de Alan, que eles tinham se conhecido na escola, que ela tinha se descoberto lésbica depois de se apaixonar perdidamente pela Kristen Stewart depois de ver crepúsculo, que ela era fã da Taylor Swift, que ela nunca tinha ido num show em todos os seus 21 anos (o que me deixou particularmente indignada) e que eu provavelmente estava me apaixonando porque era impossível sorrir tantas vezes por segundo para uma pessoa se você não estiver se apaixonando por ela. Era quase meia noite quando ela me perguntou se eu queria ir para outro lugar, eu me virei para ela, deixando nossos rostos a centímetros de distância um do outro, coloquei minhas mãos na cintura dela e eliminei os três centímetros de distância colando a minha boca na dela. Foi o melhor beijo da minha vida.
-Isso é um sim?- Ela perguntou.
-Isso é um “por favor, estou esperando isso desde que a Hadassa me mostrou sua foto.”
Ela riu e puxou pela rua, eu acabei levando a gente para um motel conhecido meu, subimos já bem animadas, trocando beijinhos curtos pelo caminho.
-Acho que eu esqueci como se transa- Ela disse quando eu fechei a porta.
-Com um beijo bom desse? Impossível.
Ela riu, eu a beijei. E beijei. E beijei. E beijei. E não foi só a boca.